reportagem que recebemos do jornal Correio do Povo de Alagoas
Zona de negligência, não de expansão
quarta, 03.06.2009, 09:34am (GMT-3)
Desenvolvimento que avilta, que agride, não pode ser jamais chamado de desenvolvimento. ‘Expansão’ que desrespeita, certamente deve ser chamada de ‘encolhimento’. Deve ser chamada de atraso. De empulhação. No sentido mais reles, deve ser chamada de populismo. E tudo isso cabe no ‘fenômeno novo-novíssimo’ que os sergipanos, e os aracajuanos sobretudo, se acostumaram a chamar de Zona de Expansão de Aracaju, um nome pomposo para esconder um lodaçal de desprezo promovido por homens públicos que atuam e agem com dinheiro público; que atuam e agem prevaricando com suas responsabilidades públicas.
Um lodaçal que tinha tudo para ser outra coisa bem diferente disso – uma zona de moradia com ar de nobreza, com a famosa tranquilidade ‘do de frente pro mar’, onde famílias de sergipanos, mesmo as de origem mais humildes como são as da maioria dos que ali estão hoje, pudessem ter uma moradia de futuro, menos insalubre, menos permeada por coliformes fecais, menos arriscosas de nelas se viver. A Zona de Expansão de Aracaju – e que zona! –, que se pode chamar de fenômeno porque fez engendrar ali mais de 70 conjuntos residenciais em menos de cinco anos, é um reflexo vergonhoso de uma cidade que cresce e incha sem nenhum rigor, sem nenhum zelo, sem o menor compromisso com as gerações futuras e sua qualidade de vida. A Zona de Expansão de Aracaju é um reflexo vergonhoso de uma cidade onde o setor da construção civil, às vezes, se junta às lideranças políticas e fazem as coisas aos seus modos, mas nunca do modo que deveria ser.
Ironicamente, depois de um mundo-sem-fim de gente ter acesso à sua mordia, de se instalar e os problemas virem à tona, aparecem agora os defensores de obras prontas para buscar solução, num quase atestado de que prevaricaram feio antes. Na semana passada chamou a atenção a ação – corretíssima se fosse adotada há cinco anos – do Ministério Público Federal, que pede providências para os problemas de saneamento que avilta o lençol freático dali, e proíbe que se façam novas construções por aquelas bandas. Não deixa de ser uma atitude correta, mas onde estava o MPF, o MPE, o Ibama e a Adema há cinco anos, quando tudo começou? Onde estavam o prefeito e a Câmara de Aracaju? Ah, estes são mais fáceis de oferecer uma resposta: certamente estavam dando retaguarda para ‘plantar casas no pântano’, esperançosos de que com elas engordassem um pouco suas poupanças eleitorais e se viabilizassem como poderosos. Mesmo que o povo, habitacionalmente, terminasse sempre mais ‘pobre’, ainda que donos de uma casa pra morar.
Mas certamente estas entidades e os políticos estavam todos juntos no mesmo projeto populista, que irmana Governos da União, da Prefeitura de Aracaju e hoje do Governo do Estado, no provimento de moradia popular, mesmo que a custa de graves erros ambientais. Todo mundo sabia que, pela conformidade do terreno daquela área, ter-se-ia problemas futuros, mas ninguém pôs qualquer obstáculos. Pelo contrário, os conjuntos foram brotando do chão como formiga carpideira, e era tudo tão natural, sem se ater que as pessoas e suas casas, sem drenagem, estariam sobre pântanos que hoje respondem duramente às chuvas. Hoje, o resultado é que, com o refluxo, o lençol freático dali é uma colcha de retalhos de coliformes fecais exposta a cada um dos seus habitantes.
Ibama, Adema, MPF, MPE e Prefeitura de Aracaju erraram feiamente. Proibir novos empreendimentos para o futuro por ali, vá lá, é acertado, mas não corrige o erro do passado. Tudo agora passa a ser muito mais caro pra fazer as coisas dentro de um rigor de saneamento que aquela zona necessita para, em vez de expansão, ela não seja de negligência.
Com menos de 600 mil habitantes, pode-se dizer que muito ainda há que se fazer por Aracaju e em Aracaju no campo da moradia, seja popular ou não. De quem é a culpa pela cidade não ter um Plano Diretor capaz de dar-lhe prumo, tino e rumo? Talvez seja de cada um dos cidadãos comuns, que ficam alheios a estas histórias, e elegem qualquer um que lhe apareça com conversa fiada e deixam tudo por isso mesmo. Como a Prefeitura de Aracaju e todos estes órgãos de vigilância da ordem erraram, que eles pelo menos voltem seus olhos e suas ações eficazes – no que não foram até agora – para o município de Barra dos Coqueiros, onde uma nova ‘Zona de Expansão’ se insinua. Agir depois que tudo esteja pronto será de novo um contributo para mais uma zona de negligência. Ou será que todos eles se apequenem e concordem mesmo com a ‘expansão’ que desrespeita e certamente será chamada de ‘encolhimento’?
FONTE
http://www.correiodopovo-al.com.br/v2/article/Sergipe/4159/

Do Melhor
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PARABÉNS PELA INICIATIVA,BOA MATÉRIA.
RICARDO | 06-09-2009 - 01:51:39 GMT 1 #